domingo, 13 de janeiro de 2013

Razões para (quebrar) o Silêncio.~



Eu não sei bem como tudo isso começou, talvez tenha sido naquele dia na festa daquele amigo meu que eu provavelmente nunca teria ido, ou talvez tenha sido no dia em  que cheguei em casa, tomei meu café e pensei: "caramba, esse é o melhor café que já tomei."

                Eu não sei bem como as coisas simples da vida (e aparentemente sem valor algum), como caminhar ao lado de alguém pode se tornar uma memória tão forte e duradoura. Um banco em uma praça, a vendedora de cachorro-quente.

                 Eu deixei de ser o tipo de homem que corria e se escondia da chuva para me tornar o homem que precisa sentir a chuva tocando a pele, encharcando o corpo, deixando a tez  gradativamente fria. Sentir a água escorrer pelo corpo misturando-se simbioticamente com as lágrimas. Eu caminhei abraçado com ela protegido pela chuva debaixo de seu guarda-chuva verde fluorescente. A chuva é em meio toda essa confusão, uma das coisas que fazem sentido para mim. Ela também não gostava da chuva, mas sabíamos que não havia melhor lugar para se estar quando estávamos juntos.

                Nós não éramos imune às tempestades.

                Há muita solidão nestas linhas, muitas páginas não escritas e sobretudo há uma esperança escondida, porque por mais fins que um pequeno conto pode ter nossas vidas continuam, e se há vida então há tempo para aprender que nem todos os fins são encerramentos definitivos das coisas que realmente são importantes. Se aprendemos com o tempo que coisas sem valor podem se tornar a razão de nossa vida, há também aprendizado nos pequenos fins que unidos tornam-se a história de nossas vidas. 

                Vivemos neste mundo de soluções fáceis, onde tudo que existe ou tudo que parece original já foi feito ou dito por alguém antes, e é muito fácil, quase impossível deixar de ser carregado por essas facilidades que nos cercam. Tudo está tão ao alcance de nossas mãos que mal faz sentido criar algo com elas. Eu não crio coisas com minhas mãos. Eu recuso quase tudo que me é oferecido. Eu existo como uma massa pesando sobre o mundo incapaz de fazer parte do mundo que criaram para mim e sempre falhando na criação da própria realidade.

                ... Mas eu acredito em coisas.
                Coisas que as pessoas evitam acreditar.
                Coisas que tornam a vida difícil de viver.
                Coisas que criam ambientes desmoronáveis.
                Coisas que acreditam que não foram feitas para durar.
                ... Mas eu acredito em coisas.
                Coisas que desafiam a crença das pessoas.
                Coisas que dão sentido a vida.
                Coisas que se reconstroem e nunca morrem.
                Coisas que se tornam épicas histórias dentro de mim.

                E assim, falhando na criação da própria história, deixando de lado a história que já estava ai antes de mim, eu vou, de falha em falha, de fim em fim, de pedaço de ruína em pedaço de ruína construindo uma história que já foi lida antes mas que nunca foi lida dessa forma antes, me tornando singular de modo ambivalente.

                Leio alguns livros.
                Tomo vários cafés por dia.
                Desperdiço muitas horas do meu dia falhando na criação do fantástico.
                ... Eu estou desempregado.
                Amo uma mulher que não está ao meu lado.
                Tenho um passado triste.
                Um futuro que olha direto para mim e me diz: "Cara, você está bem ferrado!".
                Mas eu tenho um 'presente' em meu peito que sorri e diz: "Parabéns!".

                Ontem a noite, surpreendentemente para muita gente, eu orei. Pedi a Deus para cuidar de minha família, para cuidar do meu caminho e tornar as coisas menos dolorosas nele, seja para me unir com a mulher que amo, ou simplesmente para tornar mais suportável caso meu caminho seja outro. Eu sou ateu, e não acredito em Deus, mas eu não sou dono da verdade e posso estar errado, não me torno 'herege' de meu ateísmo fazendo isso, na verdade todos deveriam ser flexíveis assim, ateus e cristãos... Simplesmente porque todos vocês podem estar errados.

                Mas...

                Me pergunto se ela está bem agora. Se o almoço que ela comeu hoje durante a hora de almoço no serviço dela estava bom. Se ela teve uma boa noite ontem, porque quando eu desejo uma boa noite para ela, eu desejo de coração e me sinto um pouco mal quando ela diz que não. Eu me pergunto o que eu fiz de errado para ela não ter tido uma boa noite... Então eu desejo um bom dia de coração para compensar.

                Eu torço todos os dias para ela mudar de ideia e vir me encontrar, deixar a vida perfeita e feliz que ela provavelmente vai ter sem mim. Optar por uma vida conturbada e cheia de pequenos fracassos e pequenos fins por toda a vida. Eu torço por essa vida, e eu torço que em algumas décadas nossa troca de olhares revele o mundo que construímos juntos. Revele gratidão e companheirismo e que em meio a tanta dor e dificuldade saibamos que somos o alicerce um do outro. E que sem todas essas coisas a vida é só uma coisa que está ai sem sentido com suas coisas facilmente alcançáveis e felicidade descartável.

                Talvez eu termine minha vida só, porque eu não acho que as pessoas desejem esperar décadas para perceberem alguma coisa, até porque essa coisa pode nem vir. Por outro lado... O homem que eu sou hoje é um homem sem as coisas que ama. A mulher de sua vida, um lar e um filho. Com essas três coisas eu fracassaria com Picasso pintando alguém de perfil ou como um certo músico surdo tentando compor uma certa felicidade. Meus desjeitos construindo a obra prima que seria minha vida!

                Eu não sei bem como tudo isso vai acabar, eu nem mesmo sabia como terminariam estas linhas. Mas estes fins ainda deixam muitas páginas brancas, e esta também era uma página branca antes de todo texto começar. Não há mais solidão, pelo menos não nestas linhas, eu dei a elas companhia e vida com meus erros e expectativas e confusões.

                Nascemos como uma tabula rasa, e não há motivo para desperdiçarmos quem somos com coisas que já existiam antes de nós, que não são nossa própria criação ou manifestações de nossos desejos reais e vontade de criação. Tornar a vida cotidiana quando podemos ver tudo de novo com olhos de mistério e descoberta? ... (teremos filhos um dia, mas é mais certo ensinarmos a ele alguma coisa ou deixar que eles aprendam alguma coisa por si sós? Devemos preencher a vida de nossos filhos com o que já sabemos? Ou deixar que eles preencham as nossas páginas brancas com as coisas que agora só eles podem ver?)

                Minha vida é calma, pacifica e nada acontece nela...

                ... Essa não é necessariamente uma verdade quando eu sou fantástico até o tutano!

                Não somos imune às tempestades, mas podemos nos abraçar e caminhar pela chuva. O vento pode virar nosso guarda-chuva verde fluorescente. Podemos rir disso enquanto tentamos arruma-lo e a chuva molha a todos nós e leva tudo mais embora!

                ... Antes disso tudo começar, havia um garoto que não existia.