Eu não sei bem como tudo isso começou, talvez tenha sido
naquele dia na festa daquele amigo meu que eu provavelmente nunca teria ido, ou
talvez tenha sido no dia em que cheguei
em casa, tomei meu café e pensei: "caramba,
esse é o melhor café que já tomei."
Eu
não sei bem como as coisas simples da vida (e aparentemente sem valor algum),
como caminhar ao lado de alguém pode se tornar uma memória tão forte e
duradoura. Um banco em uma praça, a vendedora de cachorro-quente.
Eu deixei de ser o tipo de homem que corria e
se escondia da chuva para me tornar o homem que precisa sentir a chuva tocando
a pele, encharcando o corpo, deixando a tez gradativamente fria. Sentir a água escorrer
pelo corpo misturando-se simbioticamente com as lágrimas. Eu caminhei abraçado
com ela protegido pela chuva debaixo de seu guarda-chuva verde fluorescente. A
chuva é em meio toda essa confusão, uma das coisas que fazem sentido para mim.
Ela também não gostava da chuva, mas sabíamos que não havia melhor lugar para
se estar quando estávamos juntos.
Nós
não éramos imune às tempestades.
Há
muita solidão nestas linhas, muitas páginas não escritas e sobretudo há uma
esperança escondida, porque por mais fins que um pequeno conto pode ter nossas
vidas continuam, e se há vida então há tempo para aprender que nem todos os
fins são encerramentos definitivos das coisas que realmente são importantes. Se
aprendemos com o tempo que coisas sem valor podem se tornar a razão de nossa
vida, há também aprendizado nos pequenos fins que unidos tornam-se a história
de nossas vidas.
Vivemos
neste mundo de soluções fáceis, onde tudo que existe ou tudo que parece
original já foi feito ou dito por alguém antes, e é muito fácil, quase
impossível deixar de ser carregado por essas facilidades que nos cercam. Tudo
está tão ao alcance de nossas mãos que mal faz sentido criar algo com elas. Eu
não crio coisas com minhas mãos. Eu recuso quase tudo que me é oferecido. Eu
existo como uma massa pesando sobre o mundo incapaz de fazer parte do mundo que
criaram para mim e sempre falhando na criação da própria realidade.
...
Mas eu acredito em coisas.
Coisas
que as pessoas evitam acreditar.
Coisas
que tornam a vida difícil de viver.
Coisas
que criam ambientes desmoronáveis.
Coisas
que acreditam que não foram feitas para durar.
...
Mas eu acredito em coisas.
Coisas
que desafiam a crença das pessoas.
Coisas
que dão sentido a vida.
Coisas
que se reconstroem e nunca morrem.
Coisas
que se tornam épicas histórias dentro de mim.
E
assim, falhando na criação da própria história, deixando de lado a história que
já estava ai antes de mim, eu vou, de falha em falha, de fim em fim, de pedaço
de ruína em pedaço de ruína construindo uma história que já foi lida antes mas
que nunca foi lida dessa forma antes, me tornando singular de modo ambivalente.
Leio
alguns livros.
Tomo
vários cafés por dia.
Desperdiço
muitas horas do meu dia falhando na criação do fantástico.
...
Eu estou desempregado.
Amo
uma mulher que não está ao meu lado.
Tenho
um passado triste.
Um
futuro que olha direto para mim e me diz: "Cara, você está bem
ferrado!".
Mas
eu tenho um 'presente' em meu peito que sorri e diz: "Parabéns!".
Ontem
a noite, surpreendentemente para muita gente, eu orei. Pedi a Deus para cuidar
de minha família, para cuidar do meu caminho e tornar as coisas menos dolorosas
nele, seja para me unir com a mulher que amo, ou simplesmente para tornar mais
suportável caso meu caminho seja outro. Eu sou ateu, e não acredito em Deus,
mas eu não sou dono da verdade e posso estar errado, não me torno 'herege' de
meu ateísmo fazendo isso, na verdade todos deveriam ser flexíveis assim, ateus
e cristãos... Simplesmente porque todos vocês podem estar errados.
Mas...
Me
pergunto se ela está bem agora. Se o almoço que ela comeu hoje durante a hora
de almoço no serviço dela estava bom. Se ela teve uma boa noite ontem, porque
quando eu desejo uma boa noite para ela, eu desejo de coração e me sinto um
pouco mal quando ela diz que não. Eu me pergunto o que eu fiz de errado para
ela não ter tido uma boa noite... Então eu desejo um bom dia de coração para
compensar.
Eu
torço todos os dias para ela mudar de ideia e vir me encontrar, deixar a vida
perfeita e feliz que ela provavelmente vai ter sem mim. Optar por uma vida
conturbada e cheia de pequenos fracassos e pequenos fins por toda a vida. Eu
torço por essa vida, e eu torço que em algumas décadas nossa troca de olhares
revele o mundo que construímos juntos. Revele gratidão e companheirismo e que
em meio a tanta dor e dificuldade saibamos que somos o alicerce um do outro. E
que sem todas essas coisas a vida é só uma coisa que está ai sem sentido com
suas coisas facilmente alcançáveis e felicidade descartável.
Talvez
eu termine minha vida só, porque eu não acho que as pessoas desejem esperar
décadas para perceberem alguma coisa, até porque essa coisa pode nem vir. Por
outro lado... O homem que eu sou hoje é um homem sem as coisas que ama. A
mulher de sua vida, um lar e um filho. Com essas três coisas eu fracassaria com
Picasso pintando alguém de perfil ou como um certo músico surdo tentando compor
uma certa felicidade. Meus desjeitos construindo a obra prima que seria minha
vida!
Eu
não sei bem como tudo isso vai acabar, eu nem mesmo sabia como terminariam
estas linhas. Mas estes fins ainda deixam muitas páginas brancas, e esta também
era uma página branca antes de todo texto começar. Não há mais solidão, pelo
menos não nestas linhas, eu dei a elas companhia e vida com meus erros e
expectativas e confusões.
Nascemos
como uma tabula rasa, e não há motivo
para desperdiçarmos quem somos com coisas que já existiam antes de nós, que não
são nossa própria criação ou manifestações de nossos desejos reais e vontade de
criação. Tornar a vida cotidiana quando podemos ver tudo de novo com olhos de
mistério e descoberta? ... (teremos filhos um dia, mas é mais certo ensinarmos
a ele alguma coisa ou deixar que eles aprendam alguma coisa por si sós? Devemos
preencher a vida de nossos filhos com o que já sabemos? Ou deixar que eles
preencham as nossas páginas brancas com as coisas que agora só eles podem ver?)
Minha
vida é calma, pacifica e nada acontece nela...
... Essa
não é necessariamente uma verdade quando eu sou fantástico até o tutano!
Não
somos imune às tempestades, mas podemos nos abraçar e caminhar pela chuva. O
vento pode virar nosso guarda-chuva verde fluorescente. Podemos rir disso
enquanto tentamos arruma-lo e a chuva molha a todos nós e leva tudo mais
embora!
...
Antes disso tudo começar, havia um garoto que não existia.